Existe um tipo de trabalho do qual toda economia depende absolutamente e que nenhuma economia registra. Se você já fez esse tipo de trabalho, já conhece a estranha sensação dupla de ser indispensável e invisível ao mesmo tempo.
Uma terça-feira, como acontece hoje
Ana se levanta às 5h40, antes da mãe, porque o dia flui melhor se o chá já estiver pronto. Remédio às seis, organizado na noite anterior numa bandeja de plástico com os dias impressos nela. Café da manhã, com calma. O banho leva quarenta minutos, e às vezes vem acompanhado de dois deles, e é a parte do dia que mais custa a dignidade da mãe, então Ana aprendeu a falar de outra coisa durante todo o processo.
O meio da manhã é bom. Fazem a palavra cruzada mal e porcamente. Se o tempo ajudar, dá uma volta até a esquina e volta. A farmácia liga sobre uma substituição e Ana passa dezenove minutos na espera para descobrir se isso faz diferença. Almoço. A tarde é a parte difícil — por volta das três, a mãe tem certeza de que precisa ir trabalhar, que está atrasada, que Ana é uma estranha que a está impedindo, e a única coisa que ajuda é a paciência que Ana nem sempre tem de sobra.
Roupa lavada. Jantar. O remédio da noite. Duas vezes acordadas de madrugada, uma delas longa.
Ana deixou o emprego há três anos. As economias já foram, quase todas. Nada está se acumulando para a própria aposentadoria dela. Numa festa, quando alguém pergunta o que ela faz, ela se ouve dizer: não estou trabalhando no momento.
O que o balanço diz que o trabalho dela vale
Zero. Não "um pouco". Zero.
Se a mãe de Ana estivesse numa instituição de longa permanência, aquela vaga custaria muito dinheiro todos os dias, e cada centavo dela contaria como atividade econômica. Ana está oferecendo algo comparável, sem dúvida melhor, e como nenhum dinheiro muda de mãos, as contas nacionais não registram absolutamente nada. Existe uma velha piada entre economistas: se você se casar com sua diarista, o PIB cai. É engraçada por uns quatro segundos.
Ela não é uma exceção. A Organização Internacional do Trabalho estima o trabalho de cuidado não remunerado em cerca de 16,4 bilhões de horas por dia no mundo — o equivalente a dois bilhões de pessoas trabalhando em tempo integral de graça — e calcula seu valor em algo como 9% do PIB global. As mulheres fazem mais de três quartos disso. Isso não é um arredondamento na economia. É uma parede estrutural que a contabilidade simplesmente se recusa a desenhar.
A coisa mais valiosa que ela faz o dia inteiro é a única que nenhum balanço registra.
A mesma terça-feira, em Copiosis
O alarme das 5h40 não muda. O banho continua levando quarenta minutos. Às três da tarde continua sendo a parte difícil. Quem prometer o contrário está vendendo algo.
O que muda é tudo por baixo disso. A casa não é cobrada. A comida não é cobrada. Energia, água, o remédio, os produtos para incontinência, a barra de apoio no banheiro que levou quatro meses para conseguir pagar — nada disso é cobrado, porque necessidades não são cobradas. A conta de economias não está esvaziando. Não existe aquela conta correndo silenciosamente no fundo da cabeça de Ana sobre quantos meses mais eles vão conseguir sustentar isso.
E o trabalho é registrado. Manter uma pessoa segura, alimentada, limpa, medicada e cuidada é um benefício líquido de ordem óbvia e alta, então isso gera NBR do mesmo jeito que qualquer outro trabalho benéfico gera. Não é um salário. Não é caridade. Não é um auxílio-cuidador, concedido a contragosto após uma triagem de renda e fixado abaixo da subsistência sob a teoria de que o amor deveria ser sua própria recompensa. É o mesmo mecanismo que recompensa todo mundo, aplicado a ela, porque o que ela está fazendo é claramente valioso.
O que ela faz com isso é problema dela. Talvez a cadeira boa. Talvez um fim de semana em que alguém qualificado assuma e ela vá para algum lugar com uma vista bonita. Talvez nada, guardado para depois. O ponto não é a cadeira. O ponto é que a resposta para o que você faz? deixa de ser um pedido de desculpas.
Por que o sistema notaria
Porque a pergunta que ele faz é diferente. O dinheiro pergunta: ocorreu uma transação? O trabalho de cuidado falha nesse teste por exatamente um motivo, que é ninguém ter cobrado de ninguém. O algoritmo Copiosis pergunta que bem foi produzido e que dano foi causado, e o trabalho de cuidado passa esse teste facilmente — simplesmente nunca é feita a pergunta.
O lado do dano importa aqui também. Uma sociedade que silenciosamente desgasta seus cuidadores está produzindo custos reais: a própria saúde da Ana, seu isolamento, sua década perdida de rendimentos, a crise que chega quando ela desmorona antes da mãe. Sob o dinheiro, tudo isso é externalizado sobre ela, de forma invisível. Sob um sistema que subtrai o dano da recompensa, isso faz parte do cálculo.
A parte que continua difícil
Copiosis não cura a doença. Não torna as três da tarde mais fáceis, não devolve a pessoa que a mãe de Ana costumava ser, não tira nem uma única noite de vigília da conta. Remover o dinheiro do quadro remove exatamente uma camada do peso.
Acontece que essa é a camada que a maioria dos cuidadores cita primeiro quando você pergunta o que eles largariam se pudessem.
O que não estamos te dizendo
Medir o benefício do cuidado é genuinamente difícil. É fácil escrever que o algoritmo o contabiliza. É muito mais difícil especificar como — quanto vale um dia bom contra um dia ruim, como se distingue um cuidado atencioso de um cuidado apenas adequado sem instalar vigilância na cozinha de alguém, como se evita recompensar a aparência de cuidado em vez da substância dele. Isso é trabalho de design aberto, não um mecanismo definido.
Também existe um risco que vale a pena nomear claramente: recompensar o trabalho de cuidado poderia cristalizar quem o realiza. As mulheres já carregam mais de três quartos desse trabalho. Atribuir uma recompensa a um papel não redistribui automaticamente esse papel, e um sistema que finalmente paga pelo cuidado enquanto silenciosamente assume que as mesmas pessoas continuarão a fornecê-lo acertou as contas e deixou a injustiça de pé.
E alguns cuidados simplesmente não deveriam ser feitos por um parente exausto. Exigem equipe treinada, equipamento e instituições. Copiosis torna esse cuidado gratuito para quem o recebe, o que é uma mudança real, mas não faz surgir as pessoas que o fornecem.